(1922-1979)
contrabaixo, piano
Charlie Mingus foi um dos maiores gênios musicais de seu tempo. Sua música transcendeu o Jazz. Sua maneira de compor, bastante peculiar, muitas vezes constava de estímulos ao improviso onde cada componente de sua banda participava com um trecho que era substituído por outro com o controle à distancia, mas preciso, de mestre Mingus. Quem ouvir "Mingus Ah Um" (1959), "Pithecanthropus Erectus" (1956) ou o fantástico "Tijuana Moods" (1957) vai entender na hora o que estou falando.
Doidão notório, era um glutão, biriteiro e alucinado de todas as drogas possíveis. Sua autobiografia chamada "Beneath the Under Dog" é de leitura obrigatória pra todo mundo que tenha ouvidos e coração abertos. Têm de tudo um pouco, exploração de mulheres (cafetinagem brava), lembranças dos amigos, opiniões importantes e sensíveis sobre musica - uma geléia geral, assim como é a vida mesmo.
Passei muitos anos ouvindo quase que diariamente o álbum duplo "Tijuana Moods" gravado numa balada forte em Tijuana (México) onde no meio de mulheres caras, Tequila e Marijuana baratas (não necessariamente nesta ordem) ele perpetrou uma verdadeira obra prima. O mais interessante é que os dois discos possuem as mesmas músicas em versões diferentes, onde não tem nem pior nem melhor, só ouro puro, e fica claro seu método investigativo de composição. Quando morreu, teve suas cinzas jogadas no rio Ganges na Índia por seus amigos. Uma justa homenagem a este iogue do excesso.
por Claudio Vigo, em whiplash
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Charles Mingus Jr. é o mais influente contrabaixista do jazz moderno. Nascido numa base militar em Nogale, Arizona, cresceu em Los Angeles. Tendo começado a estudar música ainda criança, depois de tentativas sem muito sucesso com o trombone e o violoncelo, acabou por se decidir pelo contrabaixo na época do colégio. Seu talento logo foi percebido, e Mingus trocou nos anos 40 nos grupos de Barney Bigard, Louis Armstrong e Lionel Hampton. Participou do trio do vibrafonista Red Norvo (com o guitarrista Tal Farlow) em 1950-1951. Nos anos 50 tocou com uma constelação de grandes músicos: Billy Taylor, Stan Getz, Art Tatum, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e Duke Ellington, a quem admirava muito.
Em 1956 Mingus gravou o disco Pithecanthropus Erectus, amplamente reconhecido como uma obra-prima, que estabeleceu definitivamente seu nome como um dos líderes do jazz moderno. Nos dez anos seguintes, ele comporia temas antológicos e gravaria discos idem, tocando com Eric Dolphy, Jackie McLean, J. R. Monterose, Jimmy Knepper, Roland Kirk, Booker Ervin e John Handy, entre outros. Durante a década de 60, porém, problemas psicológicos e dificuldades financeiras fizeram a carreira de Mingus entrar em parafuso (não sem antes gravar mais uma de suas obras-primas, The Black Saint and The Sinner Lady, e também um disco solo como pianista, Mingus Plays Piano). Alguns aspectos dessa fase estão documentados no documentário Mingus, de Thomas Reichman (1968).
As coisas só iriam melhorar, na vida profissional e pessoal, a partir de 1971, com o recebimento de uma bolsa de composição da fundação Guggenheim, a venda das matrizes do selo Debut (que fora fundado por Mingus e Max Roach) para a Fantasy, e a publicação da surpreendente autobiografia Beneath the Underdog (algo como “Mais por baixo que vira-lata”). A partir daí, começou a haver um reconhecimento maior por parte do público; porém há quem diga que o fogo criador havia sido um tanto atenuado. Em 1977 foi diagnosticada em Mingus uma esclerose lateral amiotrófica. Em 1978, realizou-se um concerto em sua homenagem na Casa Branca, ao qual Mingus compareceu já numa cadeira de rodas. O fim viria em 5 de janeiro de 1979, depois de uma série desesperada de tentativas de cura usando diversos tipos de medicina não-convencional. Depois de sua morte, seu prestígio cresceu ainda mais, e os grupos Mingus Dinasty e Mingus Big Band levaram seu legado adiante.
Mingus possuía uma personalidade complexa, contraditória e até mesmo agressiva - não são poucas as histórias que se contam de Mingus tendo agredido outros músicos. Tendo experimentado diversas interrupções na produção musical por conta de sua instabilidade emocional, recuperava-se a seguir para continuar tocando magistralmente. Sentia com intensidade o drama do preconceito racial, usando diversas vezes a música como veículo de protesto (por exemplo, na composição “Fables of Faubus”, endereçada a um governador do estado de Arkansas).
Nos anos 50 e 60, Mingus abriu novos caminhos para o jazz e para o contrabaixo em particular. Seu toque ao contrabaixo é nervoso, veloz e irregular, e seus solos são longos e intensos. Ele fez com o contrabaixo o que Max Roach e Art Blakey fizeram com a bateria: emancipou o instrumento, trouxe-o para o primeiro plano, conferiu-lhe um discurso próprio. As composições de Mingus, às vezes estruturadas de modo consideravelmente complexo, revelam um pensamento musical sofisticado. O conjunto de Mingus, em todas as suas diferentes formações, se caracterizava por uma intensa improvisação coletiva e por uma grande liberdade harmônica. Em certo sentido, ele pode ser considerado um precursor do free jazz. No entanto, é bom lembrar que Mingus nunca deixou de cultivar, mesmo em peças mais profundamente radicais, as raízes do jazz. Ora vanguardista, ora tradicionalista, ora lírico, ora feroz, porém sempre inovador e profundamente musical, Mingus criou, ao longo de seus 56 anos, uma obra profunda, que tem servido de inspiração para gerações de músicos.
V.A. Bezerra em ejazz
Goodbye Pork Pie Hat do album "Mingus Ah Um"
